A PERCUSSÃO E O CASO DE UZÁ

Davi e toda a casa de Israel alegravam-se perante o SENHOR, com toda sorte de instrumentos de pau de faia, com harpas, com saltérios, com tamboris, com pandeiros e com címbalos” 2 Samuel 6:5

O uso de percussão na música cristã ainda é visto por algumas pessoas como um elemento de secularização sendo introduzido na igreja, um sinônimo de irreverência barulho e “mundanização”.

Como apoio bíblico para essa visão, já ouvi centenas de vezes sobre o caso de Uzá, o homem que em 2 Samuel 6:6-7 toca na arca e morre instantaneamente. A explicação que sempre ouço é que a música tocado naquele momento, marcada por instrumentos percussivos como tamboris e pandeiros,  levou Uzá ao ato de irreverência claramente proibido por Deus.

Contrária a essa falácia, note a bela descrição de Ellen G. White sobre a música tocada naquele momento:

Os homens de Israel iam em seguimento, com exultantes aclamações, e com cânticos de regozijo, unindo-se melodiosamente uma multidão de vozes com o som de instrumentos músicos; “Davi, e toda a casa de Israel, alegravam-se perante o Senhor, […] com harpas, e com saltérios, e com tamboris, e com pandeiros, e com címbalos”. Fazia muito tempo que Israel não via uma cena de triunfo como aquela. Com alegria solene o vasto cortejo serpeava por entre colinas e vales em direção à santa cidade. (Patricarcas e Profetas, pág. 520)

Essa música tinha percussão e mesmo assim foi definida com duas palavras que não são contraditórias: “alegria solene”. A questão não são os instrumentos em si, mas COMO são tocados e POR QUEM são tocados.

A música melodiosa do momento nada teve a ver com o ato desrespeitoso de Uzá. Não foi o ritmo da percussão que o induziu ao pecado. Acompanhe o texto:  “A transgressão à lei de Deus diminuíra a intuição que ele [Uzá] tinha da santidade da mesma, e, tendo sobre si pecados não confessados, atrevera-se em face da proibição divina a tocar no símbolo da presença de Deus.” (PP, pág. 521)

Nesse pequeno texto, não pretendo explicar o porquê da ausência de instrumentos percussivos no segundo momento em que a arca é levada. Afinal, a Bíblia nem o Espírito de Profecia dão alguma explicação. Alguns, todavia, valem-se desse “silêncio” para “provar” que Davi retirou a percussão para deixar a música mais solene e aceitável a Deus. Todavia, ninguém pode ser dogmático usando um texto da Bíblia que não tem o objetivo de tratar daquele assunto específico (o Salmo 150, por exemplo, usado no templo, descreve o uso de percussão – ler o artigo do pr. Leandro Quadros “O Salmo 150 e o uso de percussão no louvor – http://novotempo.com/namiradaverdade/2012/01/12/o-salmo-150-e-o-uso-da-percussao-no-louvor/).

O objetivo desse texto é refletir sobre a seguinte pergunta: É possível uma música ter percussão e ser ALEGRE e SOLENE? Com certeza SIM!

Na segunda tentativa de levar a arca sagrada para a Cidade de Davi, “o júbilo então tomou o lugar do tremor e terror” (PP, pág 521). Apesar disso, Davi continuo oferecendo a Deus uma música alegre e viva.  Que assim seja o louvor de nossas igrejas.

Outra vez pôs-se em movimento o longo séquito, e a música de harpas e cornetas, trombetas e címbalos, ressoava em direção ao céu, misturada com a melodia de muitas vozes. “E Davi saltava. […] diante do Senhor” (2 Samuel 6:14), acompanhando em sua alegria o ritmo do cântico (PP 522).

[Por Daniel Lüdtke]

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8 Respostas para “A PERCUSSÃO E O CASO DE UZÁ

  1. Olá Pr. Daniel Lüdtke!

    Meus parabéns pelo seu texto!
    Excelente argumentação e embasamento!

    Segue uma contribuição pessoal para a discussão sobre o assunto:

    Ellen White X percussão: verdade ou mito?

    Muito se tem especulado sobre o porquê de não utilizarmos instrumentos percussivos na adoração congregacional.
    Uns alegam que a Bíblia os proíbe; e outros os desaprovam, dada à sua utilização em rituais de transe. Alguns acham que suplantam a letra e a melodia; e há quem afirme que a profetiza aceita por nossa religião é claramente contrária ao uso destes instrumentos. Neste artigo vamos discorrer sobre esta última posição. Afinal, seria Ellen White contrária ao uso litúrgico de instrumentos percussivos ou não? Ao pesquisar detidamente os livros, cartas e documentos assinados pela irmã White, descobri dois dados relevantes sobre este assunto:

    1) Ela nunca se opôs a nenhuma espécie de instrumento musical, inclusive os percussivos.

    2) Excetuando-se a pág. 610 de Patriarcas e Profetas, que é um comentário bíblico, existe apenas um texto em que ela menciona nominalmente um instrumento da família da percussão, e se encontra em Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 36. Este texto foi compilado com outros co-relacionados no livro Eventos Finais, à pág. 138, como está transcrito a seguir:

    “As coisas que descrevestes como tendo lugar em Indiana o Senhor revelou-me que haviam de ter lugar imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança… Uma balbúrdia de barulho choca os sentidos e perverte aquilo que, se devidamente dirigido, seria uma bênção… Satanás fará da música um laço pela maneira como é dirigida.”

    Os contrários ao emprego da percussão na adoração baseiam-se neste texto. Mas a Bíblia revela uma situação curiosa: em I Samuel 10:1-11 lemos a história de Saul, que juntamente com outros profetas movidos pelo Espírito do Senhor, tocava vários instrumentos musicais, dentre eles, tambores – o mesmo tipo de instrumento descrito por White na situação carismática em Indiana. Logo, dizer que o cerne da problemática na ocasião revivalista eram os tambores não é verdadeiro nem lógico, além de revelar falta de interpretação de texto.

    No rodapé da pág. 138 de Eventos Finais há um comentário que ajuda a compreender o texto:

    “Estas observações foram feitas em conexão com o movimento da ‘Carne Santa’ na reunião campal de Indiana em 1890. Para mais detalhes, ver Mensagens Escolhidas, vol. 2, págs. 31-39”. Em nenhum momento a pena inspirada diz que o que levou ao alvoroço foram os tambores. Lá não consta: “Satanás fará da música um laço por causa dos tambores”, mas que o Inimigo fará da música um laço “pela maneira por que é dirigida”, e momentos antes: “se devidamente dirigido, seria uma bênção”.

    Veja outros textos que remetem a esta conclusão:

    “Não nos devemos opor ao uso de instrumentos em nosso trabalho. Essa parte do serviço deve ser cuidadosamente conduzida; pois é o louvor a Deus no cântico”. – Evangelismo, pág. 507.

    “Satanás opera entre a algazarra e a confusão de tal música, a qual, devidamente dirigida, seria um louvor e glória para Deus”. – Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 37.

    “O emprego de instrumentos de música não é absolutamente objetável”. – Eventos Finais, pág. 76.

    Instruir e orientar; estas são as preocupações da serva do Senhor quanto à utilização de instrumentos musicais. Cristo quando veio à Terra não fez como muitos fariseus que se detinham em vedar e proibir; Ele viveu ensinando, pregando e curando (Mat. 4:23), e nossa missão como Seus seguidores é imitá-Lo.

    Pesquisar minuciosamente todos os textos que tratam do assunto na Bíblia, no Espírito de Profecia, no Manual da Igreja, nos documentos denominacionais oficiais relacionados à música e em outros livros sérios; estudar música – instrumento, teoria musical, história da música -; ouvir palestras de estudiosos da área; conversar com pessoas esclarecidas e abertas ao diálogo; refletir sobre os dados obtidos. Estas são algumas das formas de aprender a verdade e detectar gostos pessoais camuflados de vontades divinas.

    Sabendo que não há base no Espírito de Profecia para a proibição de instrumentos percussivos na adoração, assim como também não há fundamentação na Bíblia e nem no Manual da Igreja para tal, busquemos encará-los de maneira mais circunspecta; deixemos de recriminar as músicas que contenham estes recursos – as executadas nas igrejas, em nossos meios de comunicação e produções artísticas.

    Existem argumentos coerentes, sábios e pertinentes que levam à não utilização litúrgica de instrumentos percussivos em alguma comunidade, mas, devemos ser cristãos sérios e agir com honestidade espiritual, moral e intelectual e não alegar a esta opinião embasamento teológico, pois tal não existe.

    É hora de romper com este mito e permitir ser transformados com a verdade que liberta!

    Alfredo Ericeira – alfredoericeira@gmail.com

    Ministro de Música da IASD Central de Taguatinga – DF
    Regente, compositor, arranjador, pianista, professor de música e crítico musical
    Representante estadual do MS no Concurso Sul-Americano Bom de Bìblia em 2008
    Graduado em Música pela UFMS

    Disponível em:
    http://www.adoracaoadventista.com/2012/05/ellen-white-x-percussao-verdade-ou-mito.html

  2. Eu não sei pq ficar colocando parâmetros para uso de instrumentos. Se Davi, o homem segundo o coração de Deus, usou todos os tipos de instrumentos para louvar ao Senhor, e acho que muitas vezes a música não estava tão lenta, pois ele chegava a saltar e dançar. Eu gosto de ouvir músicas evangélicas tanto as mais agitadas como as mais lentas. Por que somos assim… as vezes queremos a calmaria e as vezes precisamos da agitação, como por exemplo quando vou à academia ou correr coloco as músicas evangélicas mais agitadas pois elas me dão a maior força e ânimo. E em todas elas consigo raciocinar muito na letra não apenas presto atenção à música. Mas fazer o que? Amo a igreja adventista e sei que é ela quem carrega a maior verdade na nossa geração, mas ela se acha rica e sábia demais e em tudo…pode até ser. E embora consiga discernir todas as profecias, se esquece daquela que adverte a ela mesma: “que não é quente nem fria, mas morna…” dá pra esperar o que das músicas?… puro tradicionalismo, claro… Mas eu apenas quero louvar a Deus com toda a minha força, alma e alegria, pois a minha maior alegria é para Ele. Claro que devemos tomar muito cuidado em não agirmos com manifestações estranhas no meio dessas músicas, como se fosse o Espírito de Deus se manifestando, de forma que ridicularizem a Deus. Esse foi o grande problema com questão a teoria da “Carne Santa” e outras manifestações que houve no início da IASD. O problema todo não era a música, a música era apenas uma “ligação” para as manifestações que eram feitas, algumas pessoas citam apenas parte deste texto colocando a música como ruim, e não lêem todo o contexto, mas o problema ali é que a função da música não era louvar a Deus, independente de ser de forma mais alegre ou solene, mas tinha a função apenas de excitar para que houvesse manifestações diabólicas como pessoas caindo e perdendo a consciência, outros dizendo que estavam com demônios no corpo e etc… que Ellen White denomina como fanatismo e o que podemos hoje chamar de pentecostalismo. Enfim, é uma questão realmente muito polêmica e cuidadosa. Embora eu sinta que muitas pessoas de outras denominações louvem a Deus com muito mais fervor e ardor do que nós da IASD, o que me faz lembrar muito mais de Davi que colocava todo o seu coração com palavras tão encantadoras e fortes em seus salmos, e algumas das músicas me fazem muito bem e me trazem para perto de Deus de forma que algumas de nossa igreja parecem ser frias demais. Foi bom discutir sobre esse assunto, é sempre bom quando é para o nosso crescimento e não para entrarmos em discórdia. Que possamos sempre estar atentos a essas questões que podem nos desviar de Deus. Um abraço querido Daniel Ludtke!

  3. Pr., parabéns pela coragem! Muitos músicos nossos parecem ter medo de se expor. Esse silêncio deles não apenas permite que os fanáticos continuem fazendo zoada em suas críticas infundadas, mas os fortalece no erro.

    Deus o guie!

  4. Daniel,

    Muito legal. Acho bem importante esclarecer isso. Quando me tornei adventista em 2002 e nos anos seguintes havia uma forte pregação de que a percussão não era para ser usada em músicas para louvor a Deus. E durante algum tempo fui “convencida'” disso, mesmo sem aceitar completamente.

    Um dos pastores “titulares” da minha igreja fez uma longa pregação afirmando isso e como resultado muita gente passou a pensar assim também. Mas depois vi argumentos como este que você e o Leandro Quadros defendem, e hoje penso diferente.

    Continue divulgando isso!

  5. Parabéns pelo artigo. Acho que já está na hora dos músicos da Igreja Adventista terem a coragem de escrever artigos sobre o assunto. Infelizmente ainda temos muitos criticos da bateria julgando os músicos de adoradores de Baal.

  6. Certa vez, em um pequeno grupo, um querido irmão utilizou esse verso como justificativa para Deus “não permitir” instrumentos de percursão na música de adoração. Minha resposta foi gentilmente pedir desculpa a aquele irmão em nome de Davi, uma vez que os músicos esqueceram de levar o piano enquanto traziam a Arca de volta para Jerusalém… 🙂

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